domingo, 24 de setembro de 2017
Lendo mulheres
Depois que comecei a ler mulheres, ficou muito difícil ler homens. Depois que comecei a ler mulheres negras, ficou mais difícil ler mulheres brancas. Explico. É que cansei de não me sentir representada. Imagine o que é isso? Uma vida inteira sem se ver na TV, nas revistas, no livro didático, na literatura. Daí, o meu espanto quando leio Conceição Evaristo, Chimamanda, Futhi Ntshingila, Carolina de Jesus, Scholastique Mukasonga. Ver a mulher negra para além dos estereótipos, em toda sua complexidade, dá uma quentura no coração. Ontem, eu lia "Onde estaes felicidade", da Carolina. Ela conta que queria construir o seu barraco, mas não tinha dinheiro para comprar tábuas. Ela foi onde estavam construindo uma igreja e pediu. Como não tinha dinheiro para o transporte, ela mesma carregou a madeira, à noite, depois do trabalho. Fazia duas viagens com as tábuas na cabeça, da Avenida Brasil até o ponto final do Canindé. Ia dormir às duas horas da manhã. Ela mesma construiu o seu barracãozinho: um metro e meio por um metro e meio. Terminou num dia de domingo. A favela estava cheia de homens e nenhum a ajudou. Sobrou uma tábua de cerca de quarenta centímetros de largura, era a cama onde ela dormia, sem colchão. Eu lembrei quando mamãe começou a construir o banheiro aqui de casa. Ela começou e não deu conta de terminar. Na ápoca, éramos estudantes na UFMG, bolsistas da Fundação Universitária Mendes Pimentel e a grana era muito curta. Mamãe me chamou para ir com ela até a prefeitura de Baldim pedir ajuda para terminar o banheiro. Eu senti muita vergonha e não tive coragem. Ela foi sozinha. Mesmo com vergonha e sem meu apoio moral, Dona Dulce foi até lá e esperou, pacientemente, para falar com o prefeito. O pedido foi atendido. Naquele tempo existia uma política pública de construção de sanitários. Quando ela chegou estava radiante de alegria. Quando leio Carolina ou Scholastique falando de sua mãe Stefânia, lembro o tempo todo de Dona Dulce. Daí, fica difícil voltar para os livros de homens-brancos-classe-média com seus problemas existenciais. Personagens que não fazem comida, não lavam sua roupa, não limpam sua casa. Deve ter alguém que faz isso, mas nem na literatura essas pessoas aparecem. Por falar nisso, é hora de começar o almoço.
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